Decathlon planeja mudar lojas no Brasil com formato compacto: o que muda?

O Crescimento do Varejo Esportivo e a Estratégia da Decathlon
O mercado global de artigos esportivos atravessa um período de grande efervescência. Observa-se um aumento no número de pessoas praticando atividades físicas e o surgimento de novas modalidades esportivas, impulsionando o fluxo de dinheiro no setor.
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O mercado mundial registrou um crescimento de 7% anualmente entre 2021 e 2024 e projeta manter uma taxa de 6% até 2029, ultrapassando a marca de 500 bilhões de dólares. Nesse cenário, a varejista francesa Decathlon se posiciona de forma privilegiada para aproveitar essa tendência.
Resultados Financeiros e Estrutura Global
A empresa encerrou 2025 com um lucro líquido de 910 milhões de euros, representando um aumento de 16% em relação ao ano anterior. O EBITDA, lucro operacional antes de impostos e amortizações, alcançou 1,8 bilhão de euros, um crescimento expressivo de 21%.
Além disso, a receita superou os 100 bilhões de reais, com um aumento de 4%.
Com 1.902 lojas em mais de 80 países e uma força de trabalho de 102.000 funcionários, a Decathlon afirma ser a maior varejista esportiva mundial, estando atrás apenas de Nike e Adidas entre as três maiores marcas globais, segundo Oliver Pedro José, chefe global de comunicação da companhia.
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A Expansão no Mercado Brasileiro: Um Novo Formato
No Brasil, a Decathlon estabeleceu sua primeira loja em Campinas, São Paulo, em abril de 2001. Atualmente, a rede conta com 50 unidades. Esse número, embora pareça modesto comparado ao alcance global, coloca o Brasil no centro de um plano estratégico de expansão.
A companhia planeja uma mudança no formato das lojas brasileiras, um movimento que pode definir a velocidade de seu crescimento nos próximos anos. O teste inicial é uma loja compacta, prevista para inaugurar no Shopping Morumbi Town, em São Paulo.
O Conceito das Lojas Compactas
Este modelo já foi implementado com sucesso em Madri e outras grandes cidades europeias. A ideia central é focar o sortimento em produtos de corrida, ciclismo e esportes urbanos, categorias conhecidas por sua alta rotatividade e por atraírem consumidores com intenção de compra definida.
A proposta é otimizar o espaço, reduzindo o estoque e acelerando o ciclo de vendas, em contraste com o modelo tradicional de grandes lojas.
Desafios do Varejo Tradicional Versus o Cenário Local
Historicamente, a Decathlon construiu sua força com lojas de grande porte, como a unidade de Campinas, que ocupa 50.000 metros quadrados, incluindo áreas de lazer. Esse modelo depende de terrenos amplos, baixo custo de aluguel e consumidores dispostos a se deslocar.
No Brasil, a combinação dessas três condições é rara. Alberto Serrentino, da consultoria Varese Retail, aponta que o alto custo dos shoppings e a força de marcas esportivas locais dificultam a replicação do formato megaloja.
A Pressão Competitiva e o E-commerce
O cenário competitivo local é complexo. Um dos principais concorrentes, dono da Centauro e distribuidor exclusivo da Nike no Brasil, faturou 7,7 bilhões de reais em 2025, com um crescimento de 8,2%. Além disso, marcas nacionais como Track&Field, Live, Lupo e Olympikus mantêm forte presença local.
A importação de produtos é pressionada pelo câmbio, afetando as margens. Soma-se a isso a concorrência de plataformas asiáticas como Shein e AliExpress, que oferecem produtos esportivos a preços muito agressivos, dificultando a comparação direta com lojas físicas.
O Brasil como Laboratório Global de Fitness
A mudança no formato das lojas ocorre em paralelo ao reconhecimento do Brasil como um centro global de desenvolvimento de produtos fitness. Isso significa que equipamentos e vestuário desenvolvidos no país serão vendidos em outras lojas da rede mundial.
A lógica segue o padrão europeu: desenvolver em um ambiente exigente para abastecer o mercado global. Amir Somoggi, sócio-diretor da Sports Value, destaca que o mercado fitness brasileiro é avançado, especialmente o feminino, e que um quarto do portfólio fitness já é desenvolvido localmente.
Conquistando o Consumidor Inativo
Um dado crucial é que 56% dos brasileiros não atingem o mínimo de atividade física recomendado pela Organização Mundial da Saúde. A Decathlon foca em transformar esse grupo, pois o equipamento acessível serve como um catalisador para a experimentação esportiva.
A estratégia é de funil: o consumidor compra um item de baixo custo, experimenta e, se gostar, migra para categorias mais avançadas. Isso reforça a vantagem estrutural da empresa em oferecer produtos de entrada acessíveis.
Reposição de Imagem e o Futuro do Varejo
O maior desafio da Decathlon não é logístico nem puramente competitivo, mas sim de imagem. Anos de foco no preço acessível criaram uma percepção de marca que a empresa busca mudar, saindo da associação exclusiva com “produto barato” para incluir inovação e tecnologia.
A reorganização do portfólio, reduzindo o número de marcas próprias, visa clarear a comunicação. Se a loja compacta no Morumbi Town for bem-sucedida, ela pode ajudar a reposicionar a marca em um ambiente de alto padrão, provando que a qualidade e o design podem acompanhar o preço acessível.
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