“Morte da Internet”? IA domina a web e transforma a experiência online. Descubra se a inteligência artificial está apagando a voz humana na internet
Enquanto o debate sobre o uso da inteligência artificial na criação de artigos, posts e relatórios continua intenso, permito-me ampliar o foco: estamos vivendo o ápice da chamada “internet morta”? A teoria, conhecida como “Dead Internet Theory”, ganhou força no início da década passada e propõe uma hipótese intrigante: desde 2016, grande parte do conteúdo e das interações online teria deixado de ser produzida majoritariamente por pessoas e passado a ser gerada por bots, sistemas automatizados e modelos de IA.
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Para muitos, trata-se de uma teoria conspiratória, mas para outros, é uma descrição exagerada de um fenômeno real: a automação crescente da rede.
A tese é simples e, admitidamente, um tanto desconfortável: o tráfego artificial aumentaria, interações seriam infladas por robôs, narrativas poderiam ser manipuladas por sistemas automatizados e, em pouco tempo, a maior parte do conteúdo disponível online seria criada por IA.
As previsões mais radicais estimam que, em alguns anos, essa proporção poderia chegar a 90% (ou mais). Independentemente do exagero nas estimativas, o ponto crucial é a mudança na presença humana na internet, que deixou de ser um pressuposto e passou a ser um diferencial.
Observe como tem sido a sua produção e a de uma parte considerável das pessoas e marcas que você segue: um texto, vídeo ou carrossel cujo tema foi sugerido por um GPT da vida. O texto, insosservadamente impecável, escrito por outra IA. As imagens criadas por um gerador visual, pago ou gratuito.
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A locução sintetizada por voz artificial. A distribuição feita por um algoritmo que conhece, com precisão cirúrgica, seus hábitos, preferências e padrões de comportamento e consumo. É um cenário que, para muitos, já se tornou familiar.
Nos comentários, perfis robotizados interagem com frases feitas, perguntas e análises sem pé nem cabeça. Por vezes, conversam entre si. Na caixa de mensagens, após o já clássico “digite a palavra X para receber Y”, surgem bots oferecendo produtos, serviços, cursos e promessas de ganho rápido. Às vezes, tudo junto e misturado.
O ambiente digital como conhecíamos, tão humanamente caótico, começa a adquirir uma textura sintética – tudo tão natural quanto robôs humanoides dançando kung-fu na TV chinesa ou animando eventos de inovação mundo afora.
CEOs de gigantes da tecnologia reconhecem publicamente a dificuldade crescente de distinguir o que é produzido por humanos do que é gerado por inteligência artificial. É como se dissessem: “sabemos que a fronteira ficou difusa. E, sim, ela continuará se movendo”.
A essa altura, você pode se perguntar: “se a produção de conteúdo se torna exponencialmente mais fácil, o que passa a diferenciar marcas, executivos e criadores? E se qualquer estrutura narrativa pode ser replicada com poucos comandos, onde reside a vantagem competitiva?”.
Na minha visão, o fator diferencial e a vantagem competitiva têm o mesmo nome: confiança. Uma confiança que não nasce da perfeição técnica. Nasce da coerência ao longo do tempo. Nasce da percepção de autoria. Nasce da sensação de que há alguém real por trás do que está sendo dito.
Acontece que a internet não vive de reflexões profundas. Vive de algoritmos e de volume. E, nesse ambiente, o efeito colateral começa a aparecer: a erosão da confiança. Conteúdos excessivamente polidos, genéricos ou intercambiáveis geram suspeita.
A audiência aprende a reconhecer padrões sintéticos. E, quando tudo parece possível de ser gerado, passa a ter valor aquilo que não é facilmente reproduzível.
Evidentemente que não devemos abandonar a inteligência artificial. A IA é uma das maiores revoluções tecnológicas desde a própria internet. Uma ferramenta poderosa de apoio, pesquisa, organização e escala. Ignorá-la seria ingenuidade. O erro estratégico não está no uso da tecnologia.
Está na terceirização integral da autoria.
Existe uma diferença brutal entre utilizar IA como apoio e permitir que ela substitua completamente sua voz. E é aqui que mora a ironia. Vivemos a era da inteligência artificial, mas corremos o risco de mergulhar na era da inteligência ausente – quando há tecnologia de sobra e discernimento de menos.
Como, então, se destacar nesse novo cenário? Fortalecendo o lastro humano: bastidores reais, reflexões consistentes, estudos de caso vividos, decisões explicadas a partir da própria experiência. Opiniões sustentadas ao longo do tempo, coerentes com trajetória e posicionamento.
Quanto mais pessoal e consistente for a construção narrativa, mais difícil será replicá-la artificialmente e maior será a confiança gerada.
A internet não está “morrendo”. Está apenas trocando de pele. E, como toda mudança na natureza, ela exigirá mais responsabilidade.
Autor(a):
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