Herança Digital: O Que Acontece com Seus Dados Depois da Morte?

Herança Digital: O Legado que Permanece na Internet
Quando uma pessoa falece, o cartório registra o óbito e o CPF passa a ter a situação de “titular falecido”, além de iniciar o inventário dos bens físicos. No entanto, no mundo digital, a situação é diferente. Contas, fotos, e-mails, documentos em nuvem, investimentos e perfis em redes sociais podem continuar ativos por muito tempo após a morte, formando o que chamamos de herança digital.
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Esse conjunto de informações e bens é composto tanto por ativos com valor econômico, como criptomoedas, milhas, saldos em carteiras digitais e lojas virtuais, quanto por conteúdos pessoais, como mensagens privadas, fotos, vídeos e arquivos armazenados em nuvem.
A Complexidade da Herança Digital
Kleber Caetano, CEO da Gerti Soluções e especialista em cibersegurança, destaca que “nada é apagado da internet de forma automática”. Contas, fotos, e-mails, arquivos em nuvem e dados de perfis podem permanecer ativos por tempo indeterminado.
A informação, portanto, adquiriu um valor econômico significativo, o que diminui a pressão sobre as empresas para eliminarem dados sem a devida solicitação formal.
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O Direito e a Herança Digital no Brasil
Atualmente, o Brasil ainda não possui uma lei específica que determine o destino dos dados digitais após a morte. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) entende que a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) não se aplica a pessoas falecidas, pois essa norma protege os direitos de pessoas naturais vivas.
Apesar disso, os ativos e direitos ligados ao patrimônio financeiro e pessoal continuam sujeitos ao Código Civil e podem ser reivindicados por herdeiros.
Como as Plataformas Lidam com a Herança Digital
Diversas plataformas implementam mecanismos para lidar com a herança digital. O Google, por exemplo, oferece o recurso “Seu legado digital”, que permite ao usuário definir um prazo de inatividade e autorizar pessoas a baixar dados da conta, incluindo e-mails, fotos e arquivos do Drive.
A Apple, por meio do Contato de Legado, permite indicar herdeiros que podem acessar fotos, mensagens e arquivos. A Meta (Facebook, Instagram e WhatsApp) oferece opções de transformação em memorial ou remoção de perfis.
Desafios e Riscos da Herança Digital
Apesar das ferramentas oferecidas pelas plataformas, existem desafios significativos. Muitos ativos digitais não aparecem em extratos bancários tradicionais, tornando difícil para os herdeiros acessá-los. A falta de acesso a senhas, chaves privadas ou autenticação em dois fatores pode tornar o bem inacessível na prática.
O caso das criptomoedas é particularmente delicado, pois a segurança depende de chaves privadas, e a perda dessas chaves pode resultar na perda definitiva do patrimônio.
Golpes e o Mercado Paralelo de Dados
A exposição de dados de pessoas falecidas aumenta o risco de fraudes. Um levantamento aponta um aumento de 200% nas tentativas de fraude com documentos de mortos entre 2018 e 2020. Recentemente, um banco de dados chamado MORGUE foi encontrado à venda na dark web, contendo 251 milhões de registros de CPFs.
Criminosos podem usar esses dados para abrir contas, fazer compras fraudulentas e extorquir familiares. A combinação de diferentes dados pode permitir a tomada de uma identidade digital.
IA e o Futuro da Herança Digital
A inteligência artificial (IA) adicionou uma nova dimensão à herança digital. A IA permite recriar a voz, imagem e aparência de uma pessoa morta, gerando debates sobre consentimento póstumo. Especialistas recomendam que a pessoa deixe registrado, ainda em vida, o que aceita ou não em relação ao uso póstumo de sua imagem e voz.
Organizando a Herança Digital: Dicas e Recomendações
Especialistas alertam que a principal forma de evitar disputas e fraudes é tratar os ativos digitais como parte do planejamento patrimonial. Isso inclui mapear contas, registrar instruções e indicar quem poderá administrar informações relevantes em caso de morte.
O chamado testamento digital pode ser registrado em cartório com orientações sobre contas, arquivos e dados em plataformas.
A organização começa pelos serviços que já têm ferramentas próprias de legado, como Google, Apple e Meta. Além disso, especialistas recomendem criar um plano de acesso pessoal, sem necessariamente entregar senhas em vida. A ideia é deixar um mapa seguro para que uma pessoa de confiança saiba como localizar contas, documentos e ativos relevantes.
Entre as medidas recomendadas estão listar e-mails, redes sociais, carteiras de criptomoedas, milhas, domínios, lojas virtuais, contas monetizadas e arquivos em nuvem; usar um gerenciador de senhas com acesso planejado; guardar chaves privadas de criptoativos em local seguro; e comunicar à família quais plataformas concentram informações importantes.
Após o falecimento, a família deve agir rapidamente. Os primeiros passos são proteger o celular e os e-mails principais, comunicar bancos, operadoras e plataformas, solicitar bloqueio ou memorialização de contas e guardar extratos e registros antes de qualquer encerramento. “Sair do improviso e tratar os ativos digitais com o mesmo cuidado que se dá ao patrimônio tradicional.
Esse é o ponto principal”, afirma Geórgia.
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