Brasil reduz violência letal, mas crimes digitais e ilegais crescem em 2026

Crimes digitais e ilegais impulsionam crescimento da criminalidade no Brasil, apesar da queda na violência letal

20/06/2026 02:50

4 min

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Brasil Registra Queda na Violência Letal, Mas Crescimento em Crimes Digitais e Ilegais

Em 2024, o Brasil apresentou uma taxa de 20,1 mortes por 100 mil habitantes, com uma redução de 26,9% nos últimos onze anos, segundo dados divulgados em fevereiro de 2025 pela pesquisa BR Latam Pulse Atlas & Bloomberg. Contudo, 73,2% dos brasileiros expressaram a percepção de que a criminalidade está em aumento, conforme revelado na mesma pesquisa.

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O Atlas da Violência 2026, publicado conjuntamente pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), analisa esse cenário. A análise aponta que a mudança na natureza do crime organizado, e não a redução da violência letal, explica a dinâmica atual.

Organizações criminosas, que antes se concentravam no tráfico de drogas, expandiram suas atividades para mercados ilegais de maior escala.

Mercados Ilegais e Movimentação Financeira

Estimativas do FBSP indicam que o mercado de cocaína representa atualmente apenas 10% da receita do crime organizado, ficando atrás de setores como o comércio ilegal de combustíveis, ouro, cigarros, bebidas e crimes virtuais. Em 2022, esses mercados geraram R$ 350 bilhões, quase dez vezes o valor estimado do tráfico de cocaína (R$ 15 bilhões).

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública quantificou que, em 2022, esse conjunto de mercados ilegais gerou R$ 146,8 bilhões.

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O crime digital também se destaca. Entre 2018 e 2024, os roubos reportados à polícia caíram à metade, enquanto os estelionatos virtuais multiplicaram mais de cinco vezes, impulsionados pela digitalização dos pagamentos, que atingiu 81,5% do total das transações bancárias.

Paraguai como Centro de Contrabando

A fronteira com o Paraguai se tornou um ponto central para a logística do crime organizado. Um estudo do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (IDESF) revela que o contrabando do país vizinho movimenta R$ 60 bilhões por ano no Brasil, superando o volume do comércio legal entre os dois países.

As margens de lucro podem chegar a 507%, especialmente no mercado de cigarros, devido ao diferencial de preço entre os impostos (90% no Brasil e 16% no Paraguai).

Outros setores também são afetados. Cerca de 36% do mercado de cigarros e bebidas e 25% dos defensivos agrícolas circulam de forma irregular. O mercado de apostas online movimentou entre R$ 100 bilhões e R$ 120 bilhões em 2023, com parcela relevante fora do ambiente regulado.

“Os crimes atuais exigem muita capacidade de investigação, com o COAF e a Receita Federal articulados no processo de denúncia e ao Judiciário. Tudo tem que ser pensado dentro dessa lógica de limitar oportunidades e aumentar os meios de investigação”, afirma Leandro Piquet, conselheiro do Livres, professor do Instituto de Relações Internacionais e pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Políticas Públicas (NUPPs) da USP.

Críticas ao Marco Legal e à Inteligência Investigativa

O Atlas da Violência 2026 critica o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, sancionado em março deste ano (Lei 15.358/2026), por priorizar o endurecimento penal em vez da inteligência investigativa. O Parlamento retirou do texto propostas que o Senado havia incluído, como a criação do Banco Nacional de Organizações Criminosas.

“Sem inteligência integrada e sem instrumentos modernos de investigação financeira, polícia e Ministério Público continuam enxugando gelo”, conclui o Atlas.

Propostas para Enfrentar o Crime Organizado

O Caderno de Políticas Públicas 2026, elaborado pelo Livres, defende atacar os fluxos financeiros que sustentam os mercados ilegais. As propostas incluem a integração de bases de dados financeiras, fiscais e policiais para monitoramento em tempo real de transações suspeitas, o fortalecimento dos mecanismos de rastreamento de recursos e a revisão de políticas que alimentam mercados ilegais.

O caderno propõe ainda o uso de tecnologias de inteligência financeira para identificar padrões de lavagem de dinheiro em ambientes digitais e a ampliação da cooperação entre estados nas regiões de fronteira.

“O problema do crime organizado no Brasil não surgiu em ano eleitoral, e a resposta a ele não pode ser eleitoreira. Falta arquitetura de política pública, integração entre instituições, inteligência financeira e coragem de enfrentar os incentivos econômicos que tornam o crime mais lucrativo do que o trabalho formal”, afirma Magno Karl, cientista político e diretor-executivo do Livres.

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