Política Internacional em Crise: Violência, Hegemonia e Resistência
As primeiras semanas de 2026 refletem uma política internacional marcada por imagens de violência, intensamente associadas ao governo Trump. No plano externo, observou-se um aumento da presença coercitiva dos Estados Unidos na América Latina, acompanhada de declarações que sinalizam a disposição do governo norte-americano de ampliar sua influência através da força.
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Paralelamente, o presidente anunciou a intenção de expandir as instalações militares estadunidenses na Groenlândia, gerando preocupações sobre o futuro da região e as relações transatlânticas.
Repressão Interna e a Ação do ICE
No âmbito doméstico, a situação se agravou com a intensificação das ações do ICE (Immigration and Customs Enforcement) contra imigrantes. Após um membro da agência ter assassinado uma cidadã norte-americana durante um protesto pacífico, uma onda de manifestações se espalhou.
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Em resposta, o presidente Trump ameaçou acionar o Insurrection Act, legislação que autoriza o emprego das forças armadas contra a própria população. Dias depois, a letalidade expandida da ICE resultou na morte de Alex Pretti, um cidadão de Minneapolis.
Análise Teórica: A Perspectiva Gramsciana
Apesar da aparente desconexão entre esses eventos, uma análise sob a ótica dos estudos críticos em Relações Internacionais revela um padrão comum: a tentativa de administrar uma crise de poder por parte do governo norte-americano. Observa-se que essa conjuntura de uso crescente da violência não expressa força ou estabilidade, mas sim uma estratégia defensiva diante de um processo de declínio da autoridade americana no sistema internacional.
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A teoria política de Antonio Gramsci oferece ferramentas valiosas para compreender essa situação.
Hegemonia, Consenso e Coerção
Para Gramsci, a hegemonia não se sustenta apenas pela força, mas por uma combinação entre consenso e coerção. A hegemonia, seja no plano doméstico ou internacional, depende tanto da capacidade de imposição violenta de regras quanto da produção de aceitação social por meio de instituições, normas e valores compartilhados.
Nesse contexto, a violência é um elemento fundamental. Os dispositivos coercitivos são essenciais para garantir a ordem existente e neutralizar ameaças ao seu funcionamento. Consenso e coerção, portanto, não são opostos, mas dimensões complementares de um mesmo projeto de poder e se articulam como duas faces da mesma moeda.
Pacificação e Militarismo: Uma Dinâmica Histórica
Ao longo da história, a consolidação da hegemonia dos Estados Unidos esteve baseada na articulação entre a difusão do capitalismo, o fortalecimento de aparatos de segurança, a expansão do complexo industrial-militar e a projeção de valores associados ao liberalismo político e econômico.
Essa combinação foi institucionalizada após a 2ª Guerra Mundial, na chamada Ordem Liberal Internacional. A longevidade desse arranjo nunca dependeu apenas da adesão voluntária a esses valores, mas também de mecanismos de regulação pela força, como a pacificação e o militarismo.
A pacificação, nesse contexto, não se trata de paz, mas de um empreendimento que promete segurança e estabilidade, legitimando o uso ou a ameaça de força para construir uma ordem social específica e preservar a acumulação capitalista.
Crise, Regulação e Resistência
Apesar da retórica do presidente Trump, os Estados Unidos enfrentam um contexto de erosão de sua autoridade política, econômica e simbólica no sistema internacional. Essa crise se expressa, entre outros fatores, no enfraquecimento da Ordem Liberal Internacional e no desgaste militar acumulado.
Nesse cenário, o trumpismo pode ser interpretado como uma resposta sistêmica à crise, um “botão de emergência” para preservar a ordem existente. Longe de representar uma ruptura, trata-se de uma força comprometida com o status quo, como evidenciado pelo slogan “Make America Great Again”.
As mobilizações populares contra a violência do ICE ou outras manifestações, ilustram esse processo, mostrando que as mesmas forças sociais que sustentam ordens hegemônicas, quando organizadas, também são capazes de questioná-las e desestabilizá-las.
