Investigações expõem falhas na auditoria do Banco Master, gerando debate sobre responsabilização de empresas como a PwC. A situação levanta questões sobre o papel das auditorias lideradas por Daniel Vorcaro
As investigações em torno da falência do Banco Master expõem falhas significativas na atuação de empresas de auditoria, gerando um debate sobre a responsabilização dessas firmas. A situação levanta questões sobre o papel crucial dessas empresas em casos como o da instituição liderada por Daniel Vorcaro.
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Juliana Maia Maciel, especialista em direito processual civil e sócia do escritório, destaca que a responsabilização dos auditores pode ocorrer de diversas formas, mesmo sem dolo ou má-fé. Ela enfatiza a importância de uma análise cuidadosa, considerando o contexto específico de cada caso.
Maciel ressalta que o desafio é calibrar o debate para evitar a criminalização ampla da atividade, concentrando esforços no fortalecimento de padrões técnicos objetivos, supervisão regulatória consistente e responsabilização proporcional por falhas comprovadas, inclusive com efeitos reputacionais relevantes em um mercado baseado em confiança institucional.
A auditoria realizada pela PwC até dezembro de 2024 identificou R$ 19,56 bilhões em cotas de fundos como um dos “Principais Assuntos de Auditoria”, uma categoria de maior risco. A empresa alertou que esses ativos “não são negociados ativamente” e que sua precificação “está sujeita a um nível mais elevado de incerteza”.
Posteriormente, a PwC assumiu o trabalho de auditoria em 2025, mas o balanço do primeiro semestre do Master não foi publicado. Em novembro de 2024, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do banco, sem tempo hábil para a publicação do balanço financeiro do ano anterior.
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Após a liquidação, descobriu-se que parte dos ativos do Master era fictícia, revelando-se que eram “créditos inventados, papéis fabricados”, que contaram com o aval de duas grandes auditorias. O jornalista Marcio Aith, em reportagem publicada neste jornal digital, apontou que não havia “incerteza”, mas sim “ativos que não existiam”. “A função de uma auditoria independente não é copiar os números que o cliente fornece e decorá-los com linguagem técnica. É verificar.
Conferir. Testar”, acrescenta Maciel.
A PwC, questionada pelo Poder360, respondeu: “Por questões de confidencialidade e regras de sigilo profissional, a PwC não está autorizada a comentar temas relacionados aos nossos clientes”.
Juliana Maciel argumenta que parte do risco envolvendo casos como este “decorre do modelo de auditoria financeira tradicional, que foi concebido para ambientes com ativos relativamente padronizados, registros rastreáveis e mercados minimamente líquidos”.
Ela enfatiza a necessidade de “fazer diferente” em contextos com ativos “exóticos” ou de difícil mensuração, exigindo auditorias reforçadas ou especializadas.
Para reduzir o espaço para falhas, Maciel sugere procedimentos como confirmações externas, inspeção de documentação primária e revisão de premissas e modelos. Ela defende aperfeiçoar as regras vigentes, tornando os deveres mais objetivos e exigíveis, especialmente em contextos de maior risco.
Maciel propõe reduzir a discricionariedade em auditorias de ativos complexos ou ilíquidos, com procedimentos mínimos obrigatórios quando esses ativos forem materialmente relevantes. Além disso, defende reforçar a supervisão regulatória baseada em risco, com revisões de qualidade mais frequentes e transparentes, e exigir maior envolvimento de profissionais experientes e governança efetiva do escopo da auditoria.
O desafio regulatório é calibrar essas melhorias para elevar a qualidade e a accountability, sem deslocar a auditoria para um modelo punitivo excessivo que acabe por reduzir sua utilidade econômica.
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