Novas Abordagens Terapêuticas Contra o Alzheimer
Pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) estão investigando um novo caminho para o tratamento do Alzheimer, explorando o potencial de moléculas derivadas do veneno de vespas, especificamente do marimbondo-estrela (Polybia occidentalis). A pesquisa, que se concentra na utilização de substâncias como a octovespin e a fraternina-10, visa interferir na formação de placas de proteína beta-amiloide no cérebro, uma característica central da doença.
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Essas placas, quando em excesso, causam inflamação e interrompem a comunicação entre os neurônios, levando, a longo prazo, à morte neural e ao declínio cognitivo.
Descobertas e Desenvolvimento de Peptídeos
O projeto, que já dura 25 anos, começou com a neurocientista Márcia Mortari, que observou que a picada do marimbondo-estrela paralisava pequenas presas devido às substâncias ativas no veneno. Através do isolamento e caracterização dos compostos presentes, foram identificadas moléculas com grande potencial farmacológico, como a occidentalina-1202, que demonstrou capacidade de prevenir convulsões, e a neurovespina, com efeitos anticonvulsivantes e potencial para prevenir doenças neurodegenerativas, como o Parkinson.
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A partir dessas descobertas, foram desenvolvidas versões modificadas da occidentalina-1202, originando a octavespin.
Estudos e Resultados Promissores
Estudos conduzidos pela professora Luana Camargo, do , sugerem que a octavespin pode prevenir as primeiras alterações fisiológicas associadas à doença de Alzheimer, atuando na formação de placas beta-amiloides, que se formam no cérebro cerca de 10 a 15 anos antes dos sintomas clássicos do Alzheimer, como confusão mental e esquecimento.
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Testes com camundongos demonstraram que a octavespin diminui a aglomeração da beta-amiloide e reduz sintomas da doença, como o esquecimento. Outra molécula desenvolvida, a alzpeptidina, combina características da octavespin e da fraternina-10, um peptídeo também derivado de veneno de vespa.
Desafios e Próximos Passos
Apesar dos resultados promissores, a pesquisa enfrenta desafios. Os testes com animais não repetiram completamente os resultados obtidos em simulações computacionais e in vitro. Isso se deve à complexidade do ambiente biológico em um organismo vivo.
No entanto, as simulações mostraram forte concordância com os experimentos, fornecendo uma base sólida para o planejamento de novos fármacos. A equipe, composta por Ricardo Gargano e Yuri Alves de Oliveira Só, do , verificou que os peptídeos provocam alterações estruturais importantes nas placas proteicas, indicando forte potencial de desagregação. A pesquisa ainda precisa de mais estudos para determinar a via de administração mais adequada, já que a aplicação direta no cérebro não é uma opção viável em termos clínicos.
Além disso, serão necessários estudos aprofundados de dose, toxicidade, segurança e farmacocinética para assegurar que esses compostos possam ser administrados sem riscos.
O Impacto do Envelhecimento na População Brasileira
Com o aumento da expectativa de vida e a inversão da pirâmide demográfica brasileira, o Alzheimer se torna uma crise de saúde coletiva iminente. Em 2019, havia 1,8 milhão de pessoas com doenças neurodegenerativas no Brasil, segundo um estudo publicado em 2024 pelo Ministério da Saúde.
A estimativa é de que esse número salte para 5,7 milhões de casos em 2050. Ivan Okamoto, neurologista do Einstein Hospital Israelita, ressalta que a terapia antiamiloide pode não ser uma cura para o Alzheimer, mas é um tratamento que ajuda a frear o avanço da doença, estabilizando o cenário de degeneração cognitiva e mantendo as capacidades do indivíduo de aprender habilidades novas, socializar e ter certa autonomia.
Mesmo sem melhora do quadro, se após um ano de tratamento o indivíduo não apresentar piora nos sintomas, isso já é uma resposta positiva.
