40+ e solteira, a escritora embarca em romance improvável! Conheça o otorrino que mudou sua vida. Descubra o drama e o amor inesperado.
Eu nunca gostei de ficar sozinha. Talvez por isso, além de ter sido casada, tive muitos namorados na minha vida. Tempo atrás, me divorcei. Ficar solteira aos 40 anos tem algumas peculiaridades. A primeira é que a gente fica mais perdida do que daminha de honra em pista de casamento. É um misto de emoções e questionamentos: “O que eu gosto?
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Pra onde eu vou? Pra quem eu ligo uma hora dessas? Como é que funciona esse tal de Tinder mesmo?”.
O mais doloroso é o inevitável medo de ficar sozinha (pra sempre, inclusive). A realidade do mercado afetivo atual é complicada: depois da pandemia, uma galera se separou, a maioria da minha faixa etária. O lado bom é que não me faltam amigos avulsos para tomar um chopp na quarta e terminar no forró (quando meu filho está no pai).
Mas, para mulheres independentes, bem resolvidas e empoderadas – como eu gosto de achar que sou – somente um sorriso charmoso ou uma tirada divertida já não faz mais verão. Vamos para a minha situação: 40+, separada, escritora, bipolar assumida e tratada, mãe, feliz com o meu cabelo.
Experimentei, mas não gostei do tal aplicativo de namoro. Comecei a trocar o forró por Emily em Paris, desencanei do medo de ficar sozinha. Foi quando, sentada no sofá, numa consulta on-line para labirintite, meu otorrino, 15 anos mais velho, me passou uma “cantada” (era assim que se falava no tempo dele).
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Resisti, mas o cara era simpático, médico, atlético e tudo de bom que rimava com “ético”. Dei uma chance, começamos a namorar. Durou enquanto durou. Talvez, pela minha inexperiência amorosa naquele momento (depois do divórcio a gente fica pré-pré-adolescente), e por ter praticamente emendado um relacionamento em um casamento, fiquei mal.
Até fiz um drama: borrei o rímel ouvindo nossa playlist enquanto comia Bacio di Latte no pote (chega uma idade que Chicabon não é mais o caso). Na verdade, o que doía não era o fim do namoro, que já não estava esses guaranás todos, mas sim o tal medo de ficar sozinha, que voltou ainda mais forte.
Além disso, se eu já não sabia quem eu era um tempo atrás, naquela hora tive que lembrar que me chamava Bia. Mas não deu nem tempo de lembrar meu sobrenome. Conheci outro rapaz. Desta vez, eu precisei me levantar do sofá, mas só para buscar meu filho na escola e dar carona pra um amiguinho novo.
O garoto tinha um pai solteiro, bonito e gente boa, como ele disse, louco para virar “irmão” do meu filho. Meu filho único também achou uma ótima ideia de ter com quem jogar videogame. Então armaram de “estudar” na casa um do outro, fazendo com que eu e o papai trocássemos mensagens e nos conhecêssemos na porta da minha casa.
Pensa numa pessoa diferente de mim. Nenhum amigo em comum, nem mesmo no Instagram, apesar de morarmos no mesmo bairro há anos. A única coisa que compartilhávamos era o gosto por música sertaneja. Mas uma coisa se sobrepôs a todas as diferenças. Uma coisa que não está nem aí pra razão: a paixão.
Eu me apaixonei por ele, ele por mim, começamos a namorar. Spoiler: depois de um ano acabou (dias atrás). Foi um relacionamento intenso, acelerado, emocionado. Juntamos a família, viajamos muito, praticamente moramos juntos. Além de gostar de Marília Mendonça, a gente se encontrava no romance: tinha “eu te amo” no espelho embaçado, café na cama com potinho de geleia e sabe Deus quantas crônicas e poemas apaixonados que escrevi pra ele.
Mas lembra das diferenças? Por mais que a gente quisesse muito ficar junto, nossa forma de ser, de pensar e nossos gostos foram ficando cada vez mais divergentes. Olha que curioso: o último desencontro foi um simples cinema. O cinema que eu tanto amo e ele não suporta.
Eu queria muito, mas muito mesmo, ver o filme “O Agente Secreto”. Wagner Moura, o melhor ator no Globo de Ouro, quatro indicações ao Oscar… preciso dizer mais? Só que, pra ele, não havia sentido assistir a um filme sentado (ao invés de esticado), sem poder apertar o pause para ir ao banheiro e, ainda por cima, pagar caro por uma pipoca, que é a especialidade dele.
Eu até quis ir sozinha, mas, na expectativa de que ele mudasse de ideia, perdi o timing e o filme saiu de cartaz. Ainda cima, não havia previsão de entrada no streaming.
Fiquei arrasada. É claro que não foi o milho da pipoca. Nem o fato de eu amar sushi e ele preferir churrasco. Ou de ele amar moto e eu morrer de medo de andar de bicicleta. A verdade é que, de improváveis, fomos ficando incompatíveis. Acabou. Quando a gente termina o namoro, o povo bate um sincerão.
O que eu mais ouvi foi: “Nossa, você está ótima” ou “Você está brilhando”. A questão não era ter saído de um relacionamento que me apagava. A novidade era que, pela primeira vez, eu não precisava mais me enxergar no reflexo de outros olhos pra existir.
De repente, fiquei confortável em ser eu. Lembra do medo de ficar sozinha? Estranhamente, virou vontade de ficar sozinha. Por quanto tempo vou ficar solteira, eu não sei, nem quero saber. Quanto mais amadureço, menos planos eu faço. Afinal, eles acabam saindo do jeito que a vida quer.
Domingo agora fui assistir “O Agente Secreto” no cinema, que voltou em cartaz, com uma ótima companhia: eu mesma. Simplesmente um dos top 3 melhores filmes que já vi na vida. Saí flutuando, nem precisava de escada rolante pra chegar no estacionamento.
Confirmei que a vida tem mesmo muito mais graça quando estamos apaixonados. E essa pessoa pode estar mais perto do que você pensa: no espelho do seu banheiro.
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