“Morro dos Ventos Uivantes”: Emerald Fennell Desvia a Essência Brontë!

“Morro dos Ventos Uivantes”: Adaptação deslumbrante, mas superficial! Elordi e Robbie brilham, mas a essência de Brontë se perde

4 min de leitura

(Imagem de reprodução da internet).

Morro dos Ventos Uivantes: Uma Adaptação Desviada da Essência Brontë

A escolha curiosa (e talvez premonitória) no cartaz de “Morro dos Ventos Uivantes”, nova empreitada de Emerald Fennell nos cinemas, é o nome do filme entre aspas. A pontuação sozinha, no entanto, não é bem o suficiente para amparar as liberdades criativas dessa nova trama, que chega às telonas no Dia dos Namorados norte-americano, 12 de fevereiro.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O longa é mais uma adaptação para o cinema do clássico da literatura inglesa de, datado de 1847. Antes dele, vieram pelo menos outras 10, com destaque para a de William Wyler, de 1939, que recebeu oito indicações ao Oscar; e para a de Peter Kosminsky, de 1992, com Ralph Fiennes e .

Todas distintas entre si, claro, mas reverentes à essência visceral de Brontë na retratação gótica da crueldade humana. É algo que parece ter se perdido na roupagem mais “pop”, sensual e anacrônica que Fennell traz em 2026, agora com e  nos papéis principais.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Aqui, a idealização do romance obsessivo, ao melhor estilo do cinema da Geração Z, é soberana frente à real crítica da obra original. E não por acaso, tem um roteiro que muito se aproxima aos exageros dramáticos de produções como 50 Tons de Cinza e até, em certos pontos, da saga .

De 1800 para 2026, muita coisa (boa) se perdeu. A trama de Brontë narra a problemática relação entre Heathcliff, um órfão adotado pela família Earnshaw, e Catherine, a filha do senhor de Morro dos Ventos Uivantes, uma propriedade localizada em Yorkshire (Reino Unido).

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

LEIA TAMBÉM!

Quando ela decide se casar com o polido Edgar Linton, para ascender socialmente, Heathcliff dedica o resto da vida a um plano cruel e meticuloso para arruinar as duas linhagens familiares. Eventualmente, ele acaba sendo assombrado pelo fantasma de Cathy.

Longe do romantismo pueril, o livro de 1800 é um mergulho sombrio no que há de mais bruto na alma humana. Explora relações que passam por abuso e violência e traz os elementos de um romance gótico ao transformar drama em maldição — capaz de atravessar gerações, inclusive.

A mais nova produção da , por outro lado, avança por uma estrada diferente. Não que ela não trabalhe os aspectos tóxicos da relação entre Cathy e Heathcliff; de alguma forma — ainda que um tanto quanto rasa —, a problemática está lá. Mas a interpretação da diretora é mais focada no caráter obsessivo, que, se feito sem cuidado, abre espaço para idealização romântica.

No filme, ela acontece no sensual jogo de corpo de Robbie e Elordi, no plano macro do rosto dos atores e principalmente na escolha dos diálogos entre eles, que são o puro suco do drama.

A partir desse recorte, a comparação com 50 Tons de Cinza e Crepúsculo não é infundada. Essas duas sagas são guiadas pelo mesmo formato que Fennell explora em “Morro dos Ventos Uivantes”, pautadas no exagero dramático, com um toque erótico (em maior ou menor intensidade), e simpatizantes das relações tóxicas.

Curiosamente, são tramas baseadas em outros livros e reescritas por fãs (as famosas fanfictions) — o pilar da nostalgia para a , que cresceu lendo essas histórias.

A montagem de Fennell também parece ignorar o tempo de maturação que a história exige, e opta por um ritmo frenético de cenas curtas, sem tempo de respiro. É uma estrutura que mimetiza no cinema os picos rápidos de dramaticidade desenhados para entregar doses imediatas de dopamina.

A presença da música de complementa o formato. Não entenda mal, a trilha sonora está longe de ser ruim e a faixa da diva pop é ótima, mas sustenta a estética do consumo rápido que o filme apresenta e a Geração Z tanto anseia. O resultado é uma trama rasa, problemática no efeito que quer causar no público e desprovida da crítica feroz contida na obra original de Brontë.

A qualidade técnica arremata o roteiro idealizado também pelo padrão estético. E, ironicamente, consegue ser um ponto mais crítico e profundo do que todo o roteiro e a direção. Elordi e Robbie: os erros problemáticos de escalação.

Em suma, “Morro dos Ventos Uivantes” é um filme tonteante no visual, mas emocionalmente anêmico. Vai agradar quem busca um “aesthetic” gótico para as redes sociais, mas deve frustrar quem esperava encontrar os cruéis Heathcliff e Catherine Earnshaw.

E quando é assim, verdade seja dita, aspas não são suficientes. É melhor não ostentar o mesmo nome do livro.

Sair da versão mobile