Você questionaria a confiança da sua vida, da sua mãe ou do seu pai a um médico que não demonstrasse conhecimento básico em uma avaliação essencial? A questão surge com força quando analisamos os dados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (ENAMED).
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A questão central não reside na prova em si, mas sim na confiança depositada no sistema de ensino médico.
O ENAMED foi criado para avaliar a qualidade do ensino oferecido no país, e os resultados revelam uma preocupante realidade. Cerca de 33% dos médicos avaliados não atingiram o nível mínimo esperado, mesmo com registro profissional ativo. Em um ano, o Brasil formou aproximadamente 40 mil médicos, com 13 mil deles sem demonstrar o conhecimento necessário para exercer a medicina com segurança.
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É crucial reconhecer o impacto psicológico dessa situação. Em momentos de urgência em saúde, os pacientes buscam profissionais que possam orientar decisões críticas, especialmente quando a própria capacidade de raciocínio está comprometida.
A quebra dessa confiança gera consequências emocionais significativas: insegurança, sensação de desamparo e perda de controle.
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Paralelamente, muitos médicos recém-formados chegam ao mercado inseguros, conscientes das limitações da sua formação e pressionados a tomar decisões rápidas sem a base prática adequada. Um sistema de ensino falho não produz apenas erros técnicos, mas também um clima de medo nos dois lados da relação médico-paciente.
Um caso recente, chocante para o país, ilustra o problema: a falta de ação diante de uma parada cardiorrespiratória, em vez de tentativas de ressuscitação, resultou em óbito. O problema não reside no aluno, mas sim no sistema que permitiu essa formação inadequada.
O Brasil possui 351 cursos de medicina, quase o dobro do número existente nos Estados Unidos, apesar de ter uma população menor e uma rede hospitalar mais desigual. Apenas 49 universidades alcançaram a nota máxima, enquanto 87% dos cursos federais obtiveram notas altas.
No entanto, 60% dos cursos privados com fins lucrativos não atingiram o mínimo exigido.
A situação se caracteriza por cursos sem hospital escola, sem campo de prática ou sem supervisão adequada, o que não forma médicos, mas apenas concede diplomas. Diante desse cenário, surge a solução politicamente conveniente: a chamada OAB da medicina, um exame final que condiciona o CRM à aprovação.
Essa medida, embora pareça firme e responsável, é apenas uma solução superficial. Não impede a existência de cursos ruins, não responsabiliza quem lucra com a formação inadequada e transfere a responsabilidade para quem já foi prejudicado. A instituição continua a gerar receita, o mercado de cursinhos preparatórios se expande e a culpa é terceirizada.
É fundamental reconhecer que a saúde não admite improviso. Um erro médico não se resolve com debates técnicos ou gráficos. É uma história de família, de dor e de perda. A solução reside em ações mais eficazes: fechar cursos com desempenho ruim, impedir a abertura de novas faculdades sem clínica escola, reduzir vagas sem campo de prática e responsabilizar quem forma mal.
A segurança dos pacientes depende de profissionais preparados e de um sistema de ensino que priorize a qualidade e a ética.
