Jet Lag Social em adolescentes: o que a UFRGS descobriu sobre o sono e a rotina?

O “Jet Lag Social“: Descompasso entre o Sono e a Rotina Adolescente
Muitos adolescentes vivem um ciclo que inclui dormir até mais tarde, ter dificuldade para acordar cedo e tentar recuperar o cansaço nos finais de semana. Esse padrão, que é frequentemente mal interpretado como falta de disciplina ou excesso de tempo em telas, possui uma explicação específica: o chamado jet lag social.
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Este termo descreve o desalinhamento que ocorre entre o relógio biológico natural do corpo e os horários impostos pela rotina diária, como o ambiente escolar e os compromissos. Na prática, o organismo segue um ritmo, mas a agenda exige outro, o que gera um desequilíbrio no corpo.
Entendendo o Descompasso do Sono
A neurologista Letícia Soster, do Einstein Hospital Israelita, esclarece que essa condição difere da insônia. Ela explica que o cerne da questão não é a ausência de sono, mas sim o descompasso entre o tempo biológico e o tempo social.
Um estudo realizado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) evidenciou a dimensão desse problema. Ao analisar mais de 64 mil estudantes de 12 a 17 anos, a pesquisa apontou que mais de 80% deles manifestam algum nível de jet lag social.
Os achados foram divulgados na revista Sleep Health.
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O Mecanismo do Jet Lag Social
Segundo a pesquisadora Nina Martins, doutoranda da UFRGS e primeira autora do estudo, o fenômeno envolve uma perda crônica de sono durante os dias de semana, que é tentada de compensar nos finais de semana. Ela ressalta que quanto maior for a diferença entre os horários de sono semanal e de fim de semana, maior será o desalinhamento.
Embora possa ocorrer em outras fases da vida, esse desajuste é mais notório na adolescência devido a uma mudança biológica natural. Os jovens naturalmente tendem a adormecer e acordar mais tarde, o que colide diretamente com os horários escolares estabelecidos.
Impactos na Saúde e Hábitos Agravantes
Apesar de ser comum, o jet lag social está ligado a diversos prejuízos para a saúde. A neurologista do Einstein enfatiza que o problema não é apenas dormir pouco, mas sim a irregularidade do sono.
Nos jovens, essa irregularidade pode levar a pior desempenho acadêmico, dificuldade de concentração, alterações no humor, além de aumentar o risco de ansiedade, depressão e até mesmo problemas metabólicos, como maior risco de obesidade.
Comportamentos que Pioram o Cenário
O estudo da UFRGS também identificou associações com outros hábitos. Foi notada uma ligação entre o uso excessivo de telas, o consumo de álcool e o hábito de pular o café da manhã.
Martins explica que o uso excessivo de telas à noite expõe o cérebro à luz artificial, mantendo a mente estimulada e atrasando o adormecer. Já o álcool, mesmo em consumo ocasional, prejudica a qualidade e a organização do sono.
A Importância do Horário Escolar e Prevenção
Outro fator que agrava o desajuste é o horário de início das aulas. A análise sugere que adolescentes que estudam no período matutino apresentam maior prevalência do problema. Letícia Soster afirma que há evidências internacionais mostrando que começar as aulas mais tarde melhora o tempo de sono, a atenção e os indicadores de saúde mental.
Para mitigar os efeitos, algumas medidas podem ser adotadas, como manter horários de sono mais consistentes, inclusive nos fins de semana, reduzir o tempo de tela noturno e aumentar a exposição à luz natural pela manhã.
Contudo, a médica alerta que, dado que mais de 80% dos adolescentes apresentam algum grau do problema, trata-se de uma questão de saúde pública. É fundamental que haja uma discussão mais ampla sobre o sono nessa faixa etária, visando promover o bem-estar geral.
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