IA e Matemática: A busca por ordem na inteligência artificial levanta questões sobre a seleção de conhecimento e a invisibilidade de vozes importantes
A inteligência artificial não é um conceito isolado da matemática; representa o mais recente capítulo de uma longa história sobre a tentativa humana de transformar o mundo em equações. A cada vez que tentamos moldar a realidade em fórmulas, inevitavelmente escolhemos o que entra e o que permanece fora desse sistema.
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Essa seleção reflete uma busca por ordem e controle, mas também carrega consigo a invisibilidade de contribuições cruciais.
Ao longo da história, mulheres matemáticas, filósofas e cientistas desempenharam um papel fundamental nessa articulação entre a forma matemática e a vida social. Figuras como Mary Everest Boole, que investigou as relações entre lógica, educação matemática e psicologia do pensamento, demonstraram um interesse profundo em como as pessoas aprendem a pensar, em vez de se limitarem a abstrações matemáticas.
Autoras contemporâneas, como Karen Barad, seguem esse caminho, utilizando conceitos da física quântica para repensar a responsabilidade e a complexidade do conhecimento.
A história dos números complexos ilustra essa dinâmica de forma vívida. A representação “imaginária” – que envolve o uso da unidade “i” – inicialmente foi vista com suspeita, mas acabou se revelando essencial para avanços significativos na matemática.
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No entanto, essa aceitação não foi um processo natural; foi o resultado de uma longa disputa, onde o poder e a influência desempenharam um papel crucial. A forma atual dos números complexos é o produto de uma seleção, onde algumas ideias foram privilegiadas e outras foram deixadas de lado.
A IA, por sua vez, apresenta um risco semelhante. A tendência de definir a inteligência artificial como predição estatística em larga escala, sem considerar outras formas de conhecimento, pode levar a um estreitamento do pensamento e à exclusão de perspectivas importantes.
A busca por eficiência e otimização, se não for acompanhada de uma reflexão crítica, pode resultar na perda de contexto e na imposição de modelos de pensamento limitados.
Assim como a história dos números complexos revela a importância de questionar as escolhas que moldam o conhecimento, a IA nos convida a expandir o “i” – a unidade imaginária. Isso significa aceitar uma maior diversidade de perspectivas, recusar modelos que enxergam o mundo de forma limitada e abraçar a complexidade inerente à realidade.
A IA não deve ser vista como um destino inevitável, mas sim como uma ferramenta que pode ser moldada e utilizada para promover a inclusão e a diversidade de imaginações. A escolha de quais metáforas, modelos e imaginários vamos seguir adiante, e quais permanecerão invisíveis, é uma decisão fundamental que moldará o futuro da inteligência artificial e da nossa sociedade.
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