IA de sites de notícias espalha conteúdo viral de URLs esquecidos

Inteligência artificial impulsiona nova geração de “fazendas de conteúdo” no Google, gerando clickbait. Leia no Poder360.

4 min de leitura

(Imagem de reprodução da internet).

## A Fábrica de Notícias: Uma Onda de Sites Gerados por IA

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No ano passado, a professora islandesa María Hjálmtýsdóttir escreveu uma coluna para o Guardian sobre o experimento do país com a semana de trabalho de 36 horas. O texto trazia ricos relatos pessoais que só uma moradora local poderia fornecer. Os leitores souberam, por exemplo, que o marido de Hjálmtýsdóttir está usando parte do tempo livre recém-adquirido para conversar com outros criadores de pombos, seu hobby.

A Repercussão Inesperada

Desde que o artigo foi publicado, o ensaio de Hjálmtýsdóttir foi despojado de seus detalhes, reformulado e republicado pelo menos uma dúzia de vezes por “veículos de notícias” quase desconhecidos. A situação revelou uma nova tendência: a proliferação de sites gerados por inteligência artificial, que rapidamente replicavam e distribuíam conteúdo, muitas vezes com desvios significativos do original.

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Sites de “Clickbait” e Domínios Reaproveitados

“Islândia mudou para uma semana de 4 dias —a Geração Z sempre esteve certa”, dizia uma manchete de 3 de julho no Dixie Sun News, em um domínio que já hospedava um jornal universitário. “A Islândia adotou a semana de 4 dias em 2015, e não em 2023, como alguns sugeriram”. O Glass Almanac, um site de ciência e tecnologia que lista um endereço falso em São Francisco (“100 Tech Way”), produz vídeos sensacionalistas no YouTube e publica artigos com nomes de autores genéricos (a foto de “Daniel Martinez” é idêntica à de um arquiteto francês com outro nome). Alguns textos incluem notas de rodapé —sinal típico de ferramentas como o Perplexity. Matt McGee, criador original do Glass Almanac em 2013, contou por e-mail que vendeu o domínio inativo no ano passado para compradores desconhecidos do Cazaquistão.

A Ameaça à Qualidade Jornalística

Sites como o African in Space —também criado a partir de um domínio reaproveitado e que apareceu no feed do Google Discover— publicou textos exaltando a superioridade dos sistemas chineses de defesa submarina, satélites e turbinas eólicas. O falso site da rádio universitária WECB.fm, que divulgou uma versão do texto de Hjálmtýsdóttir, publicou artigos elogiando a produção chinesa de aço, inovações em baterias e o desenvolvimento de “lasers de fusão”. A situação levanta questões sobre a qualidade da informação e a capacidade dos leitores de discernir fontes confiáveis.

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A Intervenção do Google e a Busca por Soluções

O Farmingdale Observer, um site que se tornou um exemplo da nova geração de fábricas de conteúdo aparentemente produzidas por IA, parou de publicar novos artigos no fim de junho, quando uma investigação do Washington Examiner expôs sua tendência de promover conteúdo sobre tecnologia e poder militar chineses. Cyrielle, representante da Tremplin-Numerique, uma empresa de marketing digital registrada na Estônia, ofereceu a publicação de artigos patrocinados em diversos sites —do portal senegalês Seneweb a um site japonês chamado Dog Magazine. A planilha anexada também incluía o WECB.fm, que, segundo a agência, teria recebido mais de 4 milhões de visitantes em maio e estava listado no Google News. Os preços variavam de 10 a 2.000 euros (de R$ 60,10 a R$ 12.020) conforme o volume de tráfego.

A Complexidade da Regulação

O porta-voz do Google não respondeu a perguntas específicas sobre como a empresa avalia conteúdo jornalístico produzido por IA, mas afirmou que as políticas de spam incluem proibição de abuso de domínios expirados —ou seja, tomar domínios antigos para manipular resultados de busca. “Nossas políticas de spam proíbem práticas enganosas voltadas a manipular o Search ou o Discover”, disse o porta-voz. “Embora não comentemos ações contra sites específicos, quando identificamos violações, tomamos medidas, que podem incluir a remoção manual.”

O Futuro da Informação

María Hjálmtýsdóttir, autora do texto original no Guardian, desconhecia a repercussão que seu artigo teve nesses sites até ser contatada. Sua reação inicial foi de lisonja. “Mas, quando paro pra pensar, é meio assustador”, afirmou. “Você não pode confiar em nada.” Professora de estudos sociais e de gênero no ensino médio, Hjálmtýsdóttir disse que está desenvolvendo o próprio olhar crítico para textos produzidos por IA. “Muitos professores estão voltando ao papel e caneta, e às provas orais”, afirmou. “A gente não confia mais em nada que os alunos entregam digitalmente.”

*Ben Paviour é articulista da equipe do Nieman Lab, cobrindo temas relacionados à inteligência artificial.*

*O Poder360 tem uma parceria com duas divisões da Fundação Nieman, de Harvard: o Nieman Journalism Lab e o Nieman Reports. O acordo consiste em traduzir para português os textos do Nieman Journalism Lab e do Nieman Reports e publicar esse material no Poder360.

Para ter acesso a todas as traduções já publicadas, clique aqui.*

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