O governo Lula prioriza modernização da Defesa com R$ 800 bilhões em 15 anos. A proposta vincula investimento à RCL, sem expansão do efetivo militar. O debate inclui a tese de 2% do PIB defendida por Celso Amorim, mas o governo opta pela vinculação à RCL para evitar conflitos com Saúde e Educação. O Brasil investe menos que a média global, com risco de obsolescência de equipamentos
A tensão entre os Estados Unidos e a Venezuela impulsionou um debate crucial no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: o orçamento da Defesa. O Poder360 apurou que a instabilidade regional, somada à percepção de uma escalada militar no entorno estratégico do país, tornou mais urgente a modernização das Forças Armadas e a ampliação da capacidade de dissuasão nacional.
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O encontro entre Lula, o ministro da Defesa, José Múcio, e os comandantes das Forças Armadas em 15 de janeiro deste ano, marcou um ponto de inflexão nesse processo.
Durante a reunião, Lula ouviu sobre a necessidade de investimento em defesa nacional a longo prazo. Os comandantes apresentaram uma estimativa de R$ 800 bilhões para modernizar as Forças Armadas nos próximos 15 anos, considerando apenas investimentos em capacidades, sem incluir o aumento do contingente militar.
O valor, alcançado a partir de estudos internos, visa a modernização de equipamentos, projetos estratégicos e a estrutura operacional das três Forças, em vez da expansão do efetivo. Essa projeção busca garantir a capacidade de defesa do país diante de um cenário geopolítico desafiador.
Para garantir previsibilidade orçamentária, a proposta é vincular o investimento à Receita Corrente Líquida (RCL), que representa as receitas correntes da União, descontados os repasses obrigatórios. A ideia é manter a previsibilidade sem ultrapassar os pisos constitucionais de Saúde (18% da receita líquida de impostos) e Educação (15% da RCL).
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O desenho proposto distribuiria os aportes com variação conforme o estágio dos projetos, começando com 2% da RCL nos dois primeiros anos, aumentando para 4% a 5% para pagamento de despesas contratadas, e retornando a 2% ao final. Se distribuídos até 2040, os R$ 800 bilhões representariam cerca de R$ 50 bilhões anuais.
A mudança no ambiente geopolítico explica o aumento do debate sobre a defesa nacional. Em 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram uma operação para supostamente combater o narcotráfico na Venezuela, interpretada como intervenção direta no país vizinho, com impacto na percepção de risco na região.
O Brasil manifestou sua oposição à intervenção na ONU, citando falta de legitimidade e desrespeito à soberania venezuelana. Apesar disso, a posição não elimina o efeito prático: a demonstração de que uma potência pode agir unilateralmente no entorno brasileiro.
A percepção dentro do governo é de que o Brasil, embora não alinhado com potências como a China, pode ser visto por Washington como país cuja autonomia precisa ser “ajustada” aos interesses americanos.
O debate ganhou impulso na terça-feira (27.jan), quando o assessor especial Celso Amorim publicou um artigo na Carta Capital defendendo 2% do PIB para a Defesa. Amorim argumenta que o mundo não é o mesmo de 1988, quando o Brasil decidiu não desenvolver armas nucleares, e que é necessário repensar a defesa.
Ele argumenta que a resposta não seria buscar armamento nuclear —isso deixaria o Brasil vulnerável a “agressão preventiva”. O caminho seria desenvolver “sistemas de defesa antiaérea, cibernética, drones” e continuar projetos como o submarino nuclear.
No entanto, segundo apurou o Poder360, vincular investimentos a um percentual fixo do PIB não tem adesão no governo. Amorim defende essa tese desde 2013, mas nunca avançou no Planalto. A resistência se deve ao receio de comprometer a flexibilidade orçamentária e criar tensões com Saúde e Educação.
A alternativa que ganhou força é a vinculação à RCL, apresentada na reunião de 15 de janeiro. Daria previsibilidade sem conflito com pisos constitucionais.
A comparação reforça que o Brasil investe pouco. O país, que já foi a maior potência militar sul-americana, hoje ocupa a 6ª posição. A Colômbia lidera com 3,4% do PIB na Defesa. Seguem Uruguai (2,3%), Equador (2,2%), Chile (1,6%) e Bolívia (1,4%), segundo o Sipri.
O Brasil investe pouco mais de 1% do PIB. A média global é 2,4%. Há problemas de obsolescência de equipamentos. A Marinha poderá perder cerca de 40% de seus navios até 2028 sem reforço orçamentário.
Uma de 15 de janeiro mostra que 58% dos brasileiros temem que os EUA façam algo parecido com o Brasil. O dado passou a ser citado como evidência de que a insegurança internacional tem reflexos diretos na percepção da população.
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