Crise Política em Londres Abala Governo de Starmer
O primeiro-ministro do Reino Unido, do Partido Trabalhista (centro-esquerda), enfrentou uma semana de intensa turbulência política que colocou em xeque a estabilidade de seu governo. Até a quinta-feira (12 de fevereiro de 2026), três altos funcionários do gabinete de Starmer pediram demissão, e integrantes do próprio partido do premiê clamaram por sua renúncia.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
A crise está diretamente relacionada à nomeação de Peter Mandelson para a embaixada do Reino Unido em Washington – cargo do qual foi desligado em setembro de 2025, após a confirmação de laços com o financista, acusado de crimes sexuais.
Novos Arquivos Revelam Profundidade da Conexão Mandelson-Epstein
Com a divulgação de novos arquivos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre o caso Epstein, jornais britânicos revelaram que a relação entre Mandelson e o financista era maior do que se supunha. Segundo os e-mails, Epstein recebia dinheiro do marido de Mandelson, o brasileiro Reinaldo Avila da Silva, em 2009 – um ano após Epstein ser condenado por prostituição de menor.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
O ex-embaixador disse que errou ao manter contato com Epstein após a condenação, mas negou ser cúmplice de seus crimes.
Crise Moral e Política em Londres
A divulgação dos documentos impactou a cúpula política britânica. Morgan McSweeney, chefe de Gabinete de Starmer, assumiu a responsabilidade pela recomendação que levou à nomeação de Mandelson ao cargo diplomático nos Estados Unidos. Seguido de McSweeney, Tim Allan, diretor de comunicação de Starmer, renunciou na segunda-feira (9 de fevereiro), e Chris Wormald, secretário do gabinete, deixou o cargo na quinta-feira (12 de fevereiro).
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
LEIA TAMBÉM!
Kai Enno Lehmann, professor de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo), descreveu o momento em Londres como de “crise obviamente moral e política”.
Oposição Capitaliza a Instabilidade
A instabilidade no governo foi capitalizada pela oposição, como o Partido Conservador, que afirma que o premiê não tem mais condições de governar, e o partido emergente Reform UK. A crise escalou para dentro do próprio Partido Trabalhista. Na segunda-feira (9 de fevereiro), Anas Sarwar, líder da legenda na Escócia, publicamente a renúncia do premiê.
Na quarta-feira (11 de fevereiro), Sarwar amenizou o tom e disse que Starmer e outros ministros do gabinete do Reino Unido eram “bem-vindos” para fazer campanha na Escócia, segundo o .
Desafios para a Governança
Para Lehmann, caso o governo de Starmer venha a cair, a pressão virá de parlamentares do próprio partido do primeiro-ministro, “possivelmente depois das eleições na Escócia, no País de Gales e as eleições locais no Reino Unido no início de maio”.
O professor afirma que a crise atual representa só mais um capítulo na série de problemas que o governo Starmer enfrenta desde 2024, quando o cargo. Além disso, a estagnação econômica e a insatisfação popular são um grande fator. No quarto trimestre de 2025, o PIB do Reino Unido apresentou um crescimento de só 0,1%.
Segundo pesquisa realizada em agosto pela , só 22% dos britânicos têm uma opinião favorável de Starmer, enquanto 69% têm uma visão desfavorável. “Nesses 20 meses de governo, o país não se sente melhor”, afirma Lehmann. “Starmer chegou ao poder sem uma grande ideia”, disse Lehmann.
Para ele, o palanque político do premiê é baseado em uma noção de competência, que estaria agora em xeque diante do caso Mandelson-Epstein, e crescimento econômico, que ainda não se consumou.
Starmer Busca Foco em Questões Práticas
O professor cita o histórico problemático de Mandelson, de conhecimento público mesmo antes da nomeação como embaixador. O trabalhista já havia renunciado por 2 vezes do gabinete do ex-premiê britânico Tony Blair (1997-2007), também do Partido Trabalista, em meio a escândalos. “Indicar como embaixador nos Estados Unidos, que é a posição mais sênior que existe no serviço diplomático do Reino Unido, uma pessoa com esse histórico, não faz sentido”, afirma Lehmann.
De acordo com ele, a situação causa uma impressão de incompetência que fragiliza o governo. Ainda assim, Starmer sobreviveu ao turbilhão político, ao menos por ora. O primeiro-ministro que não renunciaria de seu mandato, a despeito das pressões internas e externas. “Eu nunca fugirei do mandato que me foi dado para mudar esse país”, afirmou.
Em participação na rádio LBC, a vice-líder do Partido Trabalhista disse que a posição do premiê estava muito melhor na quarta-feira (11 de fevereiro) do que no início da semana. Starmer tenta mudar o foco do debate público para questões mais práticas, como o custo de vida da população. “Colocar mais dinheiro no bolso das pessoas.
Esse é o foco do meu governo”, afirmou em no X. Para Lehmann, no entanto, é improvável que isso seja suficiente para garantir longevidade ao seu governo.
