Crise hídrica em São Paulo: rodízio de água em Itaquera e Guaianases. Moradores enfrentam falta de abastecimento e compra de caminhões-pipa. Problema político, não geográfico. Falta de prioridade e desigualdade no acesso à água
Em áreas da zona leste de São Paulo, como Itaquera e Guaianases, moradores enfrentam um rodízio de abastecimento de água, com pressão irregular e a necessidade de instalar caixas d’água. Em momentos críticos, a solução é a compra de caminhões-pipa.
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Essa situação contrasta com bairros centrais que mantêm fornecimento estável, indicando que a questão não é geográfica, mas sim política.
A água não desapareceu das cidades brasileiras. O problema reside na falta de prioridade dada a esse recurso, conforme apontado pelo relatório da United Nations University – Institute for Water, Environment and Health (Global Water Bankruptcy: Living Beyond Our Hydrological Means in the Post-Crisis Era, 2026).
A ideia de “falência hídrica” se refere ao consumo que ultrapassa a disponibilidade anual de fontes renováveis, incluindo reservas em aquíferos, rios e ecossistemas.
Essa situação evoluiu para um modelo sustentado pelo adiamento de decisões. No Brasil urbano, onde vivem cerca de 85% da população, a realidade se reflete nas torneiras. A rede de abastecimento existe, os contratos também, mas a infraestrutura precária tornou o fornecimento menos previsível.
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Em muitos bairros, a água chega com intermitência, variação de pressão e um custo crescente. Isso se deve a um déficit de planejamento, apesar do conhecimento acumulado sobre mananciais e suas vulnerabilidades. A incapacidade institucional de agir com antecedência e planejar a longo prazo se repete.
Por anos, o problema foi chamado de crise, com a expectativa de um retorno à normalidade. O problema é que essa normalidade se tornou um parâmetro instável, com a escassez se consolidando como a nova realidade.
Em vez de reconhecer essa nova realidade, os governos continuam operando sob a premissa de um problema passageiro, buscando soluções emergenciais, campanhas tardias e recomendações domésticas de economia. O ponto central é a insistência em tratar a água sob uma ótica técnica, ignorando sua importância como questão de decisão pública diante da escassez, produzida pelo consumo sem planejamento.
Acumulam-se diagnósticos e dados científicos, mas falta a escolha explícita de proteger um bem de origem natural como prioridade coletiva. Quando a água é insuficiente para todos, a pergunta real deixa de ser sobre a falta em si e passa a ser sobre quem ficará sem ela primeiro.
Em períodos de estresse hídrico, a escassez se manifesta na forma de rodízio informal nas áreas com menor infraestrutura e menor capacidade de influência institucional, onde reside a população mais pobre, enquanto regiões centrais preservam maior regularidade no abastecimento.
A segunda questão é o custo gerado pela complexidade e inter-relação entre ações de diversas secretarias e entidades governamentais. Adaptar sistemas hídricos exige investimento público nas três esferas de governo, proteção de mananciais e redução de perdas.
Mas, na ausência de decisão, o custo migra para o cotidiano doméstico. Basta observar a multiplicação de soluções improvisadas: caixas d’água ampliadas, bombas, compra de água em caminhões-pipa em períodos críticos.
A adaptação deixa de ser planejamento urbano e transforma-se em despesa privada imposta. E então surge a terceira pergunta: quem pode comprar proteção e quem apenas suporta a precariedade? Condomínios e empreendimentos de alta renda perfuram poços ou criam estruturas próprias de segurança hídrica, enquanto parte significativa da população depende exclusivamente de um serviço intermitente, com margem financeira insuficiente para compensar falhas estruturais.
A desigualdade deixa de ser efeito colateral e torna-se mecanismo de funcionamento politicamente naturalizado.
A inação política expressa-se para além da ausência de obras. Manifesta-se na recusa em nomear prioridades, no adiamento de escolhas distributivas e na transferência do risco para as famílias, aprofundando desigualdades preexistentes diante da permissão pública para a privatização da adaptação.
A água existe. Falta determinação governamental — antes de a cidade oficializar a desigualdade pela torneira.
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