Chikungunya se Espalha com o Aquecimento Global, Alerta Cientistas
A propagação de doenças tropicais, impulsionada pelo aquecimento global, é uma realidade já consolidada. Um estudo recente, publicado na Journal of Royal Society Interface, revela um desenvolvimento preocupante: a chikungunya está se expandindo rapidamente no Hemisfério Norte. Casos isolados da doença, trazidos por viajantes de regiões tropicais, haviam sido registrados em mais de dez países europeus nos últimos anos. Com a crise climática e o aumento das temperaturas, o vírus encontrou condições favoráveis para se disseminar localmente, atingindo áreas antes consideradas improváveis.
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A descoberta crucial reside na capacidade do vírus de se transmitir em temperaturas entre 13°C e 14°C – uma diferença de 2,5ºC em relação às estimativas anteriores (16°C a 18°C). Apesar da pequena variação, os pesquisadores a classificaram como “bastante chocante”, considerando que grande parte da Europa já apresenta condições climáticas para surtos da doença durante vários meses ao ano. A transmissão ocorre através do mosquito-tigre asiático ( Aedes albopictus), uma espécie invasora que se espalhou pelas últimas décadas. Quando o inseto pica uma pessoa infectada, o vírus entra em seu intestino e, após um período de incubação, passa a estar presente na saliva, podendo infectar a próxima vítima.
Em 2025, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) alertou para surtos localizados da doença em países das Américas, incluindo a Bolívia, o Brasil, o Paraguai e partes do Caribe. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que as mortes pela doença no Brasil representam cerca de 72% do total mundial. No país, o vetor é o Aedes aegypti, o mesmo mosquito responsável pela dengue e pelo zika.
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Sandeep Tegar, autor principal do estudo, declarou que as novas estimativas são “alarmantes” e que a expansão da doença no continente europeu é apenas uma questão de tempo. “A taxa de aquecimento global na Europa é aproximadamente o dobro da taxa mundial, e o limite inferior de temperatura para a propagação é muito importante”, afirmou.
Nesse cenário, a chikungunya passa a ser possível por mais de seis meses ao ano na Espanha, Portugal, Itália e Grécia, e por três a cinco meses na Bélgica, França, Alemanha e Suíça. Mesmo o sudeste da Inglaterra pode registrar condições favoráveis à transmissão por até dois meses ao ano.
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O recente surto na França, que acumulou cerca de 30 casos de chikungunya ao longo de dez anos, só revelou a gravidade da situação em 2025, quando foram registrados mais de 800 casos na Itália, com surtos de grande escala. A chikungunya causa dores articulares intensas e debilitantes, podendo ser fatal em crianças pequenas e idosos, com efeitos que podem ser duradouros: a OMS estima que até 40% das pessoas infectadas continuam sofrendo de artrite ou dores severas cinco anos após a infecção.
Vinte anos atrás, a ideia de ter chikungunya e dengue na Europa era considerada improvável. Hoje, essa realidade se tornou uma preocupação crescente, impulsionada pelo mosquito invasor e pelas mudanças climáticas.
Inverno como Barreira Natural Desaparece
Os cientistas explicam que, até então, os invernos rigorosos do continente interrompiam o ciclo de transmissão de um ano para o outro, funcionando como uma “barreira natural” contra a doença. Mas agora, a atividade do mosquito-tigre é observada durante todo o ano no sul da Europa, o que sugere que essa proteção está desaparecendo e que os casos tendem a se intensificar com o aquecimento global.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o estudo um alerta claro: sem controle do aquecimento global e sem políticas eficazes de prevenção, doenças antes restritas aos trópicos devem se tornar cada vez mais comuns também em países ricos.
Diana Rojas Alvarez, que lidera a equipe da organização sobre vírus transmitidos por picadas de insetos e carrapatos, lembrou que a Europa ainda tem a chance de controlar a disseminação e que há uma “janela de oportunidade”.
A eliminação de água parada, onde os mosquitos se reproduzem, é uma das ferramentas mais eficazes de prevenção, ao lado do uso de roupas compridas, repelentes e da criação de sistemas de vigilância epidemiológica. Além disso, há vacina contra a chikungunya, mas seu custo elevado limita o acesso.
