BBC Arabic realizou 215 correções e esclarecimentos em dois anos, conforme revelado por relatório do Committee for Accuracy in Middle East Reporting and Analysis (CAMERA). O relatório detalha reportagens consideradas tendenciosas ou imprecisas, incluindo correções sobre a brigada Al-Qassam e a ideologia do Hamas. O ECU da BBC não citou casos específicos de assassinatos de reféns, como o de Ofir Tzarfati
A BBC Arabic tem realizado, em média, duas correções por semana em reportagens relacionadas ao conflito entre Israel e o Hamas desde os ataques de 7 de outubro de 2023. Essas correções foram reveladas por um relatório do jornal britânico, levantado pelo Committee for Accuracy in Middle East Reporting and Analysis (CAMERA).
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O relatório detalha um serviço em árabe da emissora que fez 215 correções e esclarecimentos em dois anos, abrangendo reportagens consideradas tendenciosas ou imprecisas.
O caso gerou pressão sobre a BBC, que já enfrentava controvérsias, incluindo uma envolvendo o documentário sobre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Uma parte do documentário, exibida em outubro de 2025, cortou trechos do discurso do republicano antes da invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, onde ele pedia protestos “pacíficos e patrióticos”.
Além disso, o documentário apresentou declarações de Trump em momentos diferentes como se fossem uma única sequência, o que também foi questionado.
A BBC Arabic corrigiu reportagens que descreviam a brigada Al-Qassam, braço militar do Hamas, como “responsável por guardar” reféns, sem mencionar a condição de sequestro. Em uma dessas peças, duas mulheres israelenses expressaram gratidão pelos “bons cuidados” recebidos durante sua custódia.
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Após reclamações do CAMERA, a emissora alterou o texto e incluiu menções aos abusos praticados pelo grupo. No entanto, o ECU (Executive Complaints Unit) da emissora não considerou necessário citar casos específicos de assassinatos de reféns, como o de Ofir Tzarfati.
Outra série de reportagens contestada pelo CAMERA tratava da ideologia do Hamas, sem mencionar o estatuto do grupo que defende a destruição de Israel. A BBC manteve o conteúdo, justificando que o objetivo da série não era discutir a fundação do movimento.
O ECU confirmou a decisão. Além disso, mais de 40 correções foram feitas em matérias que classificaram comunidades dentro do território reconhecido de Israel como “assentamentos” e seus residentes como “colonos”.
Críticos entrevistados pelo Telegraph apontaram que o problema não se limita às reportagens, mas a falhas no sistema interno de avaliação. Baroness Deech, ex-integrante do conselho da BBC, afirmou que o ECU “fecha os olhos” para desvios editoriais.
Michael Prescott, ex-assessor independente do comitê responsável pelas diretrizes editoriais, enviou um memorando ao conselho da emissora, relatando a presença de jornalistas que fizeram declarações abertamente antissemitas e que continuaram a receber espaço na BBC Arabic.
Segundo o Telegraph, um deles chamou um autor de ataque a civis israelenses de “herói” e interagiu, nas redes sociais, com mensagens pedindo “gargantas cortadas”. Outro convidado recorrente descreveu judeus como “demônios” e israelenses como “menos que humanos”.
Ambos continuaram a aparecer no canal, conforme uma revisão interna citada pelo jornal.
Danny Cohen, ex-diretor da BBC Television, afirmou ao Telegraph que a direção da emissora ignora os alertas sobre a BBC Arabic. Para ele, o volume de correções deveria ter levado à intervenção da chefia, mas não houve mudança. O CAMERA afirmou que o caso expõe falhas estruturais nos mecanismos internos da emissora.
Kurt Schwartz, diretor do grupo no Reino Unido, disse que o dossiê “confirma de maneira contundente” que a BBC Arabic tem divulgado relatos distorcidos sobre o conflito. Quando a BBC corrige reportagens, mas o seu órgão interno de fiscalização “insiste em defender a cobertura”, fica evidente que “o sistema de controle editorial não está funcionando”.
O Ofcom, órgão regulador do setor de mídia do Reino Unido, disse que a BBC cometeu uma “grave violação” das regras de radiodifusão ao não informar que o narrador do documentário “How to Survive a Warzone” (em português, “Como Sobreviver a uma Zona de Guerra”) é filho de um oficial do Hamas.
O filme aborda a guerra entre Israel e o grupo extremista em Gaza, na Palestina. Em resposta, a BBC disse que o serviço em árabe publicou mais de 11.000 reportagens desde 7 de outubro de 2023 e que o CAMERA enviou 159 reclamações nesse período. A emissora afirmou buscar “os mais altos padrões de jornalismo” e que corrige conteúdos quando necessário.
Disse ainda que o ECU atua de forma independente.
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