Aumento alarmante de lesões em jovens no Brasil: o que os dados do SUS mostram?

Aumento Alarmante de Lesões Autoprovocadas em Jovens no Brasil
A infância e a adolescência são fases cruciais para a formação do indivíduo, período em que se desenvolvem a personalidade, habilidades sociais e resiliência. Contudo, essa efervescência emocional torna os jovens mais suscetíveis a eventos estressores ou traumáticos.
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Um estudo recente, publicado em março nos Cadernos de Saúde Pública, aponta um cenário preocupante no Brasil: o crescimento dos casos de lesões autoprovocadas. Analisando registros do Sistema de Informações Hospitalares (SIH) entre 2013 e 2023, dados majoritariamente do Sistema Único de Saúde (SUS), pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) fizeram descobertas alarmantes.
Dados Estatísticos e Causas Subjacentes
As internações relacionadas a esse tipo de ocorrência aumentaram em 44,3% ao longo da década, e as mortes registraram uma elevação de 26,3%. No total, foram documentados 18.382 casos de internação e 261 óbitos nesse período histórico.
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Compreendendo o Comportamento Autolesivo
A médica Gabriela Garcia de Carvalho Laguna, residente em Medicina de Família e Comunidade na UFSB, explica que os comportamentos autolesivos podem ser vistos como uma maneira de lidar com um sofrimento emocional intenso e complexo, que não tem uma causa única.
Vários fatores contribuíram para o aumento das internações e óbitos. Os processos biológicos de construção de identidade e senso de pertencimento são apenas parte do quadro. Segundo o Ministério da Saúde, a vulnerabilidade de crianças e adolescentes pode ser agravada por negligência parental, conflitos familiares, preconceito, violência (física, psicológica ou sexual), problemas de saúde, abuso de substâncias, privação de sono e uso excessivo de redes sociais.
O Impacto da Tecnologia e das Relações Sociais
Embora o acesso à tecnologia facilite conexões e conversas, ele também pode criar ambientes hostis, marcados por pressão estética, isolamento e agressões constantes. O psiquiatra Elton Yoji Kanomata, do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein (IIEP), ressalta que a violência ultrapassa o mero “zoar”, configurando uma agressão psicológica intensa, onde a vítima se sente refém.
A tendência de aumento foi mantida durante a década, com exceção do ano de 2020, que refletiu a subnotificação devido ao enfrentamento da pandemia de Covid-19. Laguna avalia que o maior número de mortes em 2020 pode indicar casos mais graves, ligados às dificuldades de gerenciar adversidades e desafios psicossociais potencializados pela crise.
Perfil das Vítimas e Desigualdades Sociais
Demograficamente, o levantamento apontou que adolescentes de 15 a 19 anos, residentes nas regiões Sul e Sudeste, foram os mais afetados. Observou-se que, embora as internações fossem mais frequentes no sexo feminino, os óbitos ocorreram com maior incidência entre os meninos, sugerindo diferenças na gravidade das tentativas.
É crucial notar que indivíduos pretos e pardos lideraram tanto os registros de internações quanto os de óbitos. Experiências de racismo, desigualdades socioeconômicas, desemprego parental e a falta de acesso a direitos básicos, como saúde e moradia, estão diretamente ligados ao sofrimento mental dessa população.
Sinais de Alerta e Busca por Ajuda Profissional
Sinais de risco incluem alterações de humor, como ansiedade, irritabilidade e tristeza; isolamento social; perda de vínculos de amizade; queda no rendimento escolar e diminuição de energia. É fundamental que os responsáveis estejam atentos a esses sinais.
Orientação para os Responsáveis
Não há um método único para identificar vulnerabilidades emocionais. Kanomata aconselha que os pais devem estimular a autonomia, mas sem negligenciar o conhecimento sobre a vida dos filhos. Se o sofrimento for perceptível, mas não afetar a rotina, é recomendado conversar com professores e a coordenação pedagógica da escola.
Em casos de maior gravidade, a busca por ajuda profissional na saúde mental é imperativa. Laguna enfatiza a necessidade de políticas públicas de prevenção na atenção primária para reduzir internações. É vital investigar vulnerabilidades como o bullying e intervir precocemente.
O acompanhamento ideal deve ser multidisciplinar, envolvendo psiquiatras e psicólogos. O médico do Einstein conclui que, ao surgirem sinais, é essencial manter um canal de comunicação aberto entre pais e filhos, pois eles formam a rede de apoio primária para buscar o auxílio adequado.
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