Astronautas testam relógio de pulso para monitorar sono na missão Artemis 2

Monitoramento do Sono de Astronautas na Missão Artemis 2
Poucas horas antes da espaçonave Orion cruzar os céus rumo à Lua, no dia 1º de abril de 2026, o engenheiro mecatrônico recebeu uma confirmação aguardada desde o anúncio da missão Artemis 2, em 2023. Um e-mail da NASA informava que a tripulação do primeiro voo tripulado ao redor do satélite em meio século levaria consigo um dispositivo desenvolvido por ele e sua equipe na startup paulista, com o inicial do programa (Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas) da Fapesp. “O comunicado da NASA foi repentino e nos pegou de surpresa.
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E só depois da conclusão da missão também soubemos que os astronautas já utilizavam o equipamento em testes nos últimos dois anos”, diz Okamoto à Agência Fapesp.
O Actígrafo: Um Relógio de Pulso para Monitorar o Sono
Denominado actígrafo, o dispositivo possui o formato de um relógio de pulso e integra acelerômetros e sensores de luz e temperatura para mapear, com alta precisão, os padrões de sono e vigília do usuário ao longo de dias ou semanas. O funcionamento baseia-se em um sensor de atividade que monitora a frequência e a intensidade dos movimentos do braço.
A partir da análise desses dados, é possível inferir os períodos de repouso (ausência de movimento) e os de prontidão (presença de movimentos), registrando com exatidão o comportamento circadiano do indivíduo. Esse “relógio biológico” de aproximadamente 24 horas, que regula as funções físicas e comportamentais da maioria dos seres vivos, é influenciado primordialmente pela luminosidade.
Para monitorá-la, o dispositivo conta com dez sensores embarcados que detectam a exposição à luz em diferentes faixas espectrais. Esses dados são cruciais, pois permitem caracterizar não apenas a intensidade da luz, mas também sua composição espectral ao longo do ciclo claro-escuro, principal regulador externo responsável por sincronizar o relógio biológico interno com o ambiente. “O ciclo claro-escuro é definido pela rotação da Terra e é a partir dele que o cérebro antecipa o momento do sono.
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No espaço, essa referência se perde, pois os astronautas podem permanecer em claridade ou escuridão constantes, dependendo da posição em relação ao Sol”, diz Pedrazzoli, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP).
Cronobiologia e a Influência da Luz no Sono
Especialista em cronobiologia – ciência que estuda os ritmos e o relógio biológico interno dos seres vivos –, Pedrazzoli coordenou estudos que embasaram o desenvolvimento do actígrafo brasileiro. O dispositivo foi submetido a rigorosos testes para avaliar se os dados atendiam às necessidades da missão e se era seguro e confiável para o voo, afirma Okamoto.
Desafios do Sono no Espaço
Na ISS (Estação Espacial Internacional), por exemplo, os astronautas testemunham 16 alvoreceres e entardeceres por dia, fenômenos que podem desregular severamente o ciclo sono-vigília. Para mitigar esse estresse, engenheiros da NASA buscaram no mercado global opções de actígrafos capazes de monitorar a tripulação em tempo real.
O dispositivo da Condor Instruments chamou a atenção da agência depois da participação de representantes da startup em congressos científicos internacionais de cronobiologia, sono e luz.
“Em 2023, eles nos contataram em busca de um novo fornecedor. Inicialmente, realizaram uma compra pequena para os setores de ciência e engenharia. Desde então, participamos de diversas reuniões à medida que o projeto evoluía. O dispositivo foi submetido a rigorosos testes para avaliar se os dados atendiam às necessidades da missão e se era seguro e confiável para o voo”, afirma Okamoto.
O Sucesso da Condor Instruments
Embora houvesse a sinalização de uso na Artemis 2 desde o fim de 2025, a confirmação oficial só veio no dia do lançamento. “Só quando a nave decolou soubemos que o dispositivo estava de fato a bordo”, diz o engenheiro. O dispositivo conta ainda com um botão de eventos, acionado de forma sincronizada pelos astronautas em momentos históricos, como no dia 6 de abril, quando a Orion atingiu 406.777 km de distância da Terra – o ponto mais distante já alcançado por humanos.
Durante a coletiva de imprensa pós-missão, o comandante Reid Wiseman contou outra utilidade do aparelho: “O uso desse dispositivo nos permitia recuperar o foco sempre que nos distraíamos”.
Tecnologia e Aplicações do Actígrafo
De acordo com Okamoto, o actígrafo brasileiro destaca-se frente aos competidores internacionais por integrar o monitoramento da atividade motora, a exposição à luz e a temperatura corporal. Este último dado é crucial, pois a temperatura do corpo humano cai entre 1 °C e 2 °C durante o sono, um processo fisiológico do ciclo circadiano que favorece o relaxamento e a conservação de energia.
Outro diferencial é a medição da luz melanópica – espectro da luz azul-ciano (cerca de 490 nanômetros) que impacta o sistema não visual humano. Essa luz ativa as células ganglionares fotossensíveis na retina, inibindo a melatonina e sinalizando ao cérebro que é dia, o que eleva o estado de alerta e suprime o sono. “Os telefones celulares emitem luz justamente nesse comprimento de onda.
Por isso, o uso desses aparelhos à noite altera radicalmente a regulação cerebral do sono”, afirma Pedrazzoli.
O dispositivo conta ainda com um botão de eventos, acionado de forma sincronizada pelos astronautas em momentos históricos, como no dia 6 de abril, quando a Orion atingiu 406.777 km de distância da Terra – o ponto mais distante já alcançado por humanos.
Durante a coletiva de imprensa pós-missão, o comandante Reid Wiseman contou outra utilidade do aparelho: “O uso desse dispositivo nos permitia recuperar o foco sempre que nos distraíamos”.
O Futuro do Monitoramento do Sono no Espaço
Segundo a NASA, os dados do actígrafo coletados durante o voo serão comparados a testes de coordenação motora e questionários pré e pós-lançamento. O objetivo é otimizar o design de futuras espaçonaves para garantir a segurança em missões de longa duração. “O que aprendermos nos ajudará a entender como os astronautas podem sobreviver e prosperar mais distantes da Terra”, afirma a agência.
A Jornada do Actígrafo
A trajetória do actígrafo começou por uma necessidade de Pedrazzoli na condução de estudos realizados no âmbito do – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão financiado pela Fapesp e ligado à Universidade Federal de São Paulo. Os primeiros protótipos foram usados para avaliar o impacto do horário de verão na população. “Percebemos que era preciso escalar a produção para atender às nossas pesquisas e ter suporte técnico especializado”, explica o professor.
Por indicação de , professor da Escola Politécnica da USP, Pedrazzoli conheceu Okamoto e , então mestrandos na Poli-USP, interessados em abrir uma startup tecnológica. Com o apoio do programa PIPE-FAPESP, os engenheiros transformaram o protótipo em um produto comercial de alta precisão. “Depois dos primeiros protótipos com peças usinadas, buscamos o investimento do PIPE da FAPESP para viabilizar o negócio”, diz Okamoto.
Hoje, a startup exporta 80% de sua produção, de 200 a 300 dispositivos por mês, para mais de 40 países, atendendo grandes universidades e centros de pesquisa. O dispositivo é aplicado em estudos que vão desde a epidemia de miopia na Ásia até a recuperação de bebês prematuros em UTIs neonatais.
A meta agora é manter a parceria com a NASA para as próximas etapas da campanha Artemis, incluindo o pouso no polo sul da Lua previsto para 2028. “Faremos tudo o que pudermos para continuar como fornecedores da agência”, afirma Okamoto.
Na avaliação de , coordenador da área de Tecnologias e Parcerias de Inovação da Fapesp, a participação da Condor Instruments na missão Artemis 2 é a materialização do que a Fapesp busca com o programa Piper: transformar ciência de bancada em soberania tecnológica nacional. “É fundamental destacar que o apoio do programa foi um dos alicerces no início da formação da empresa, quando o risco tecnológico é mais alto e o capital privado ainda é escasso.
Esse fomento inicial permitiu transformar um protótipo acadêmico em um produto comercial de precisão extrema”, afirma Azevedo. O sucesso da empresa também traz uma lição importante sobre a natureza da inovação: o financiamento precisa chegar cedo, mas os resultados de grande impacto podem levar tempo para maturar, avalia Azevedo. “Entre os primeiros protótipos apoiados pelo Pipe e o anúncio de que a tecnologia brasileira está monitorando astronautas no espaço profundo, a startup percorreu uma jornada de anos de pesquisa e refinamento.
Isso reafirma que a inovação disruptiva exige paciência estratégica e investimento contínuo para que possamos colher frutos que elevam o nome do Brasil no cenário internacional”, diz.
Este texto foi originalmente pela Agência Fapesp, em 29 de abril de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.
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