Alterações no olfato podem ser sinal de doenças neurológicas, incluindo Alzheimer. Testes de identificação de odores auxiliam na triagem e acompanhamento
Mudanças na percepção do olfato são frequentemente consideradas problemas temporários e de pouca importância clínica. Geralmente, são associadas a gripes, alergias ou, mais recentemente, à Covid-19. No entanto, estudos científicos acumulados nas últimas décadas revelam que, em determinadas situações, alterações sutis na capacidade de sentir cheiros podem ser um sinal precoce de doenças neurológicas, incluindo o Alzheimer.
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É crucial distinguir entre a perda do olfato como um problema benigno e quando requer investigação médica, auxiliando no diagnóstico precoce, acompanhamento adequado e na manutenção da qualidade de vida. O olfato desempenha um papel singular entre os sentidos, conectando-se diretamente a áreas do cérebro responsáveis pela memória, emoções e comportamento, como o bulbo olfatório, o sistema límbico e o córtex entorrinal.
Ao contrário da visão ou da audição, os estímulos do olfato alcançam rapidamente estruturas profundas do cérebro, sem passar inicialmente pelo tálamo. Essas regiões são as primeiras a sofrer alterações estruturais e funcionais no processo neurodegenerativo do Alzheimer.
Portanto, déficits na identificação, discriminação e reconhecimento de odores podem surgir anos antes dos sintomas cognitivos clássicos, atuando como um marcador funcional precoce.
Pesquisas recentes indicam que testes simples de identificação de odores, combinados a avaliações cognitivas breves, podem ajudar a identificar indivíduos com maior risco de declínio cognitivo, ampliando as possibilidades de triagem em ambientes clínicos e na atenção primária.
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Apesar da atenção dada à Covid-19, a maioria das alterações do olfato tem causas não neurológicas. Entre as mais comuns estão a rinite alérgica, a rinossinusite crônica, diversas infecções virais, tabagismo, uso de certos medicamentos e exposição a substâncias irritantes.
Nesses casos, a perda do olfato geralmente acompanha sintomas nasais ou respiratórios e tende a melhorar com tratamento específico. Distinguir corretamente causas locais de causas neurológicas é essencial para evitar alarmismo e atrasos no diagnóstico.
O sinal de alerta surge quando a alteração do olfato é progressiva, persistente e não se explica por doenças nasais evidentes. O risco é maior quando o sintoma aparece em pessoas com mais de 60 anos ou se associa a queixas cognitivas sutis, como lapsos de memória, dificuldade de concentração ou mudanças de comportamento.
Nesses cenários, a alteração olfatória deve ser interpretada como parte de um quadro clínico mais amplo, e não como um achado isolado.
A abordagem inicial costuma incluir avaliação otorrinolaringológica, com o objetivo de excluir causas inflamatórias ou estruturais nasais. Na ausência de explicação local, ou diante de sinais neurológicos associados, a investigação deve prosseguir com avaliação neurológica e neuropsicológica.
O conceito atual de diagnóstico do Alzheimer evoluiu para um modelo baseado em biomarcadores, reconhecendo que o processo patológico começa muito antes da manifestação clínica evidente. Nesse contexto, o olfato pode atuar como um sinal sentinela acessível, orientando a necessidade de acompanhamento mais próximo.
A identificação precoce permite um melhor planejamento de cuidados, controle de fatores de risco modificáveis, orientação adequada de pacientes e familiares e preservação da autonomia e da segurança.
A perda do olfato afeta não apenas o prazer alimentar e social, mas também a segurança no dia a dia, ao reduzir a percepção de fumaça, vazamento de gás e alimentos estragados. Em certos contextos, pode ser um sinal silencioso de que o cérebro está em processo de mudança.
Reconhecer esse sintoma com atenção, equilíbrio e base científica contribui para uma abordagem mais preventiva, humana e orientada ao futuro da medicina.
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