Domesticação do Alecrim-do-Mato: Um Novo Horizonte para o Semiárido
Pesquisas da Embrapa estão avançando na domesticação da Lippia grata, também conhecida como alecrim-do-mato, uma espécie aromática nativa da Caatinga. O objetivo é transformar essa planta em uma fonte de renda e desenvolvimento sustentável para a região do Semiárido brasileiro. Os estudos, que começaram em 2009, visam criar um ciclo produtivo completo, desde a produção de mudas até a extração do óleo essencial, com aplicações tanto na agricultura quanto na indústria.
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Protocolos de Produção e Extração do Óleo Essencial
Uma das primeiras etapas da pesquisa é o desenvolvimento de protocolos para a produção de mudas. Devido à sua forma de reprodução, que não envolve sementes, os pesquisadores criaram um método de propagação vegetativa. Os experimentos indicam que o alecrim-do-mato é fácil de enraizar, sem a necessidade de produtos químicos estimulantes, tornando o processo viável em escala.
Para a formação das mudas, recomenda-se a coleta de ramos medianos das plantas matrizes, retirados entre 50 e 60 centímetros do solo. O substrato mais adequado, até agora, é a vermiculita expandida, um produto mineral com alta capacidade de reter água.
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Óleo Essencial de Alto Rendimento
Outro foco da pesquisa é a obtenção de um óleo essencial de alta qualidade. Isso envolve cuidados em todas as etapas, desde a colheita e secagem das folhas até a extração e armazenamento. Na semiárida, a colheita do alecrim-do-mato pode ser realizada ao longo do ano.
Após a colheita, as folhas devem ser secas à sombra, evitando a exposição direta ao sol, que compromete a qualidade do óleo. Estudos mostram que o uso de folhas secas proporciona um rendimento elevado, com produção entre 3 e 5 mililitros de óleo essencial para cada 100 gramas de folhas secas – um índice considerado excelente.
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A destilação é o método mais indicado para a extração, pois preserva as propriedades químicas e biológicas do óleo. O armazenamento deve ser feito em frascos âmbar ou protegidos da luz, em temperaturas inferiores a 15°C.
Aplicações Agrícolas e Bioinsumos
O alecrim-do-mato se destaca por sua forte ação antifúngica e antibacteriana contra patógenos que afetam culturas importantes da região, como manga e uva. Testes laboratoriais e em campo confirmaram sua eficiência na inibição de fungos como Lasiodiplodia, Aspergillus, Alternaria e Cladosporium, incluindo a que causa a “quebra-faca” e o marmeleiro. Mesmo sem contato direto com o óleo, experimentos demonstraram que o crescimento desses fungos é interrompido. Essa característica é especialmente útil na pós-colheita da uva, onde não podem ser utilizados tratamentos que umedecessem os cachos. A pesquisa avança no desenvolvimento de formulações e nanoformulações que tornem o óleo mais estável, seguro e eficiente no campo, superando desafios como a volatilidade e a baixa solubilidade. Estudos avaliam o uso do composto em revestimentos pós-colheita para prolongar a vida útil da manga.
Bioeconomia, Agroecologia e Potencial Industrial
Além das aplicações agrícolas, o alecrim-do-mato desperta interesse da indústria de cosméticos e fragrâncias. Desde 2022, a Embrapa Semiárido mantém uma parceria com a empresa , no âmbito de um projeto de inovação aberta voltado ao desenvolvimento de produtos comerciais a partir de ativos naturais da Caatinga e do Cerrado.
A pesquisa também busca consolidar cadeias produtivas, levando o cultivo para parceiros, integrando os princípios da agroecologia e da bioeconomia. O alecrim-do-mato é um exemplo de como a biodiversidade da Caatinga pode impulsionar inovação, renda e inclusão socio-produtiva.
As perspectivas são excelentes, e a pesquisa continua trabalhando para ampliar suas aplicações e consolidar essa nova cadeia de valor.
